quarta-feira, 9 de agosto de 2017

ENTREVISTA VIRTUAL COM PADRE EUSTÁQUIO


É o missionário holandês que dedicou sua vida a aliviar o sofrimento dos seus semelhantes, em fervorosas súplicas à Divina Providência. Faleceu em Belo Horizonte, em 1943 e, pelas suas virtudes e pela sua dedicação, deu natural nome a uma região da cidade, onde foi glorificado e sepultado.  Santo Padre Eustáquio foi beatificado pelo papa Bento XVI, em 2005. Seu sepultamento foi trasladado para a Igreja dos Sagrados Corações, que ele iniciou a construir.




Entrevistador -Venerável Padre Eustáquio! Pelos Sagrados Corações, peço, antes de tudo, a sua bênção e a sua proteção.
Padre Eustáquio – Em nome de  Deus, e pela minha Congregação dos Sagrados Corações, será abençoado e protegido.
E – Graças a Deus! Amém!
PE – Graças a Deus!
E – Padre Eustáquio! Sua vida foi uma missão? A entrega de uma vida?
PE – Verdadeiramente, assim é. Quando um sacerdote decide entregar-se por uma causa a favor da humanidade, significa que ele tomou uma decisão para toda a sua vida. É a predominância da fé nos seus objetivos de vida.
E – E o senhor decidiu entregar a sua vida por uma causa de Deus e da humanidade!
PE – Isso mesmo! Eu, por minha vez, decidi a minha missão. O que eu iria prestar em serviços aos meus semelhantes? Foi uma decisão muito pensada e sofrida. Ter que abandonar a minha pátria, meus pais, meus familiares, todos e meus amigos fraternos. Sou de uma família de onze filhos. Eu era o oitavo. Nós nos amávamos muito.
E – E pesou mais a sua vontade de servir a Deus?
PE – Antevi a minha missão, entregando minhas mãos, meu corpo inteiro e, além disso, a minha própria alma, para ajudar pessoas em conflito, onde quer que estivessem.
E – E como surgiu essa força, essa convicção?
PE – Quando jovem estudante na minha pátria, Holanda, caiu em minhas mãos um livro sobre a biografia de um missionário belga da nossa Congregação, Padre Damião Veuster.
E – Sim! E o que tinha de especial esse padre Damião Veuster?
PE – Quando li os relatos do trabalho dele, da abnegação e entrega total â sua missão, houve um abalo no meu peito e eu me curvei fervorosamente.
E – E o que tinha feito o Padre Damião?
PE – Tão pouco aos olhos de muitos, ajudando pobres miseráveis, sem destino, que talvez não tivessem nenhum valor, sob o ponto de vista dos poderosos.  Tinha para Deus. Padre Damião seguiu por um caminho que o levaria à santidade. O missionário belga se entrega em ajudar uma população enferma na ilha do Havaí. Na época, um reinado carente, com alto índice de enfermidades, desde gripe à sífilis contraída ou hereditária, até a lepra.
E – E padre Damião entrou como voluntário?
PE – Nesse reinado, por comando das autoridades, os leprosos foram isolados numa ilha afastada, ilha de Molokai. Mais de 600 pessoas em estado de desespero. E famintas. Ilha de Molokai. O Havaí é hoje uma unidade incorporada aos EUA mas, na época, predominavam as enfermidades e o abandono.
E – Foram isolados, numa ilha afastada?
PE – A Royal Board of Health fornecia alimentos, mas não tinha condições de fornecer também medicamentos. Uma infelicidade generalizada. Todos condenados.
E – E Padre Damião? 
PE – Em 1865, foi colocado em missão na ilha do Havaí. O Monsenhor Louis Maigret, vigário apostólico, que protegia os leprosos, designou Padre Damião para assistir esses leprosos com os sagrados sacramentos e com os atos religiosos. Uma população segregada. Damião sabia que tal designação seria uma sentença de morte para ele.  Depois de muito pensar, Damião solicitou a sua designação para servir a Deus nessa ilha de Molokai.
E – E Padre Damião seguiu para Molokai?
PE – Damião chegou à ilha em 1873 e foi apresentado pelo Monsenhor Maigret como um pai para todos os moradores - “viverá e morrerá com vocês”. Isso foi. Damião assumiu essa paternidade total. Trabalhar sem saber por onde começar. Abriu tantas frentes de trabalho que nem imaginava resultados. Passou a construir um pequeno hospital, com a colaboração de um médico que tinha contraído a doença e se refugiou na ilha. Logo depois, uma capela, com a ajuda das mãos feridas dos leprosos. Uma  população revoltada. Nada podia ser diferente. Era uma população agressiva que matava por um punhado de arroz. Paz, apaziguar e manter clima de harmonia em princípio. Assim, incorporou a figura de pai, amigo, confidente, professor e representante de Deus. Foi realmente um pai para todos. Tornou-se mesmo mais que um pai e um irmão, procurando amenizar o sofrimento tanto quanto possível.
E – E aí morreu?
PE – Sim... mas antes disso, recebeu do Rei Kalakaua, do reino do Havaí, o título honorífico de Cavaleiro Comandante da Real Ordem. E, no dia que a Princesa Lydia Lili´uckalarti visitou a ilha para entrega da comenda, ela se comoveu tanto que não conseguiu ler o seu discurso. Padre Damião nunca usou essa medalha recebida.
E – Houve reconhecimento quanto ao seu trabalho?
PE – Sim... Nos EUA e na Europa – Hoje tem o título de Patrono Espiritual dos Leprosos do mundo inteiro. Era Jozef de Veuster, da Congregação dos Sagrados Corações, nascido em Tremelo, Bélgica, em 1840.
E – Um santo?
PE – Sim... Um santo. Dez anos depois de chegar a Molokai, num dia, colocou os pés numa bacia de água fervente. Nada percebeu. Foi constatada a contaminação da lepra. Ainda viveu por mais algum tempo sem abandonar a sua missão... Faleceu em 1889, nessa mesma ilha de Molokai. Era um missionário da minha Congregação, que tanto me emocionou e inspirou.   
E – Padre Damião foi assim admirado pelo senhor?
PE – Tornou-se meu ídolo inspirador. Tomei a decisão na minha vida, aliviar enfermidades e propor paz e harmonia entre as pessoas. Meu lema seria SAÚDE E PAZ. Vi que eu também poderia prestar algum serviço à humanidade. Qualquer pequena ajuda. Vi quão pequeno eu era diante do Padre Damião, diante da sua força e diante da sua convicção. Eu não era nada.
E – E o senhor era um jovem estudante na Holanda, nessa época.
PE – Eu era Humberto Lieshout, nascido em 1890, em Aarle Rixtel, Holanda. Iniciei o noviciado canônico em Tremelo, na Bélgica. Nessa época, adotei o nome de Eustáquio. Fiz votos de pobreza, castidade e obediência, como religioso da Congregação dos Sagrados Corações. Fiz votos perpétuos em 1919, após cursar Filosofia e Teologia na congregação e fui ordenado sacerdote.
E – Aí começa a sua vida sacerdotal?
PE – Sim. Inicialmente, comecei a prestar serviços em pequenas comunidades na região de Roterdam. Depois, atendendo refugiados belgas, vítimas do final da Primeira Grande Guerra de 1914/1918, até que fui designado para trabalhos na América do Sul.
E – E finalmente, o Brasil?
PE – Em 1925, chegamos ao Brasil. Éramos três sacerdotes, eu e os Padres Gil van den Boorgart e Padre Matias van Rooy. Dirigimo-nos a cidade de Uberaba, em Minas Gerais, a convite do Bispo Dom Antônio de Almeida Lustosa. Assumimos a pastoral do santuário episcopal e das paróquias de Nossa Senhora da Abadia, na cidade de Romaria da paróquia de São Miguel de Nova Ponte e Santana de Indianópolis, todas da Arquidiocese de Uberaba. Fiquei como vigário paroquial com prioridade para os serviços de atendimento às comunidades da região.
E – Uma comunidade rural de modestas aspirações?
PE – Uma comunidade afetiva e acolhedora. Aprendi muito e tive que me adaptar às circunstâncias. A atividade pastoral em Romaria, no início foi muito difícil. Pouco a pouco fomos nos acertando. Talvez uma descrença generalizada. Visitava os enfermos e pessoas que podiam me acolher com simpatia. Distribuímos fé e amor a Deus. Se as pessoas não vinham a mim eu iria a elas. Consegui mais do que esperava e reuni esforços em várias comunidades distantes. Montava a cavalo e viajava por todos os lados. Tive sucesso. Prestei alivio a pessoas em conflito físico e espiritual. Tudo era distante e as comunicações eram precárias.
E – Consta que o senhor era ágil, dinâmico e acolhedor. Atendia até mordida de cobra?
PE – Isto aconteceu. Comunidade rural, sem médicos ou medicamentos. Estava eu, cavando um local a procura de areia especial para algum aproveitamento a dores, quando fui chamado para dar os últimos sacramentos a um rapaz da região que tinha sido mordido por uma cobra e estava em estado terminal. Peguei o cavalo e fui disparado para o local. Manoel estava sem ar, perna roxa, suando frio, praticamente sem consciência. Lembro-me bem! Pedi que todos se afastassem do quarto. Tirei um bisturi da minha bolsa de couro e fiz um incisão no local da marca dos dentes da cobra. Perna roxa e inchada. Jorrou um sangue preto. Limpamos tudo. Coloquei minha boca nesse local e aspirei uma boa quantidade de sangue. Manoel, um belo rapaz, foi salvo, graças à vontade de Deus.
E – Mas o senhor já tinha dado bênçãos milagrosas a outros paroquianos em dificuldades e doenças.
PE – Sempre procurei atender e pedir a Deus por eles. Muitas vezes fui atendido.
E – Mesmo assim, depois de tanto trabalho, a Congregação aceitou a sua transferência para a cidade de Poá, em São Paulo.
PE – Meu voto de obediência exigia esse caminho diferenciado. Mas a população de Romaria não permitiu. Tudo fez para impedir a minha saída. Até o bloqueio de estrada de acesso. Finalmente, uma festa de despedida. E o caso de um crime abalou a cidade. Saí discretamente mas deixando a população entristecida, sei disso.
E – E o que encontrou em Poá?
PE – Tudo diferente. Uma paróquia nova, grande e confortável. Comunicação rápida. Tudo diferente em termos, pois a população era sofrida pelo trabalho nas indústrias e como hortigranjeiros. Atendia de forma diferenciada. Comecei a visitar enfermos e pessoas em dificuldades. Houve, em pouco tempo, uma procura desproporcional às minhas possibilidades de atendimento, principalmente pela água milagrosa que eu trouxera da cidade de Lourdes - França. Depois, pela fonte construída em homenagem a Lourdes. Houve curas a meu pedido. Houve distúrbio e pessoas de outras regiões acorriam às minhas bênçãos e ao meu atendimento. As autoridades eclesiásticas não queriam isso. Obrigaram-me ao recolhimento. Impediram que eu aparecesse para os paroquianos. Tudo tão estranho e desconfortável para mim. Isso fez com que pedissem meu afastamento. Passei um tempo de desconforto e de humilhação. Estava mesmo em desespero. Por que Deus me daria esse castigo? Meditei, viajei, sofri em desamparo. Talvez me afastar do país? Portugal me acolheria? Finalmente, fiz uma carta a meu amigo, Dom José Gaspar de Affonseca e Silva, Arcebispo Metropolitano de São Paulo, relatando meu estado de desespero e humilhação e disposto a continuar o exercício paroquial em qualquer outra comunidade do estado de modo como ele julgasse apropriado. Dom Gaspar respondeu que seria inviável a minha permanência no estado, para evitar aglomerações e atividades que poderiam ocasionar até advertências do Sumo Pontífice e coisas assim. Estaria eu livre para ir para onde quisesse.
E – Era manifestação das autoridades eclesiásticas e não as do povo.
PE – Sim, mas o povo era a causa. Pensei que pudesse ser até uma contradição entre as autoridades que buscam o povo e depois, tenta afastá-lo.
E – E o senhor?
PE – Meu voto de obediência foi preservado. Procurei caminhos. Todos se fecharam. Eu era então um sacerdote rejeitado. Que fazer da minha vida? Por que Deus me deu um poder e ao mesmo tempo me tolhe e me angustia? Chegou finalmente a ordem para que eu me afastasse imediatamente, mesmo considerando que era tarde da noite quando recebi a comunicação. Obediência mesmo sem ter tempo de acabar de ler o meu breviário. Assim mesmo.
E – Que decisão?
PE – Que decisão? A quem recorrer? Não podia também prejudicar a imagem da minha Congregação. E meus amigos? Apareceu o Padre Gil. Confabulamos e traçamos planos em várias tentativas de acerto. Mais erros e decepções. Finalmente, uma luz. Padre Gil articulou-se com o Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, Dom Antônio dos Santos Cabral e me foi oferecida uma paróquia de subúrbio da cidade, ao redor de um hospital de tuberculosos, o Sanatório Alberto Cavalcanti.  Uma capela distante, de difícil acesso num bairro despovoado. Além de tudo com uma lista de recomendações. Aceitei tudo de pleno coração. Encontrei-me em casa.
E – Nova vida?
PE – Assim foi. Iniciei minhas atividades em Belo Horizonte, em 9 de abril de 1942,  e agi de acordo com as circunstâncias. Aos poucos fui crescendo e a comunidade foi chegando a mim. E foi chegando tão inesperadamente que alguns meses depois, Dom Cabral me pediu que esquecesse daquelas recomendações que tinha feito.
E – O povo acolhia as suas bênçãos!
PE – Sim... Vinham pessoas de várias regiões, inclusive de São Paulo mesmo. Assim foi, até que o atual prefeito da cidade, doutor Juscelino Kubitschek de Oliveira doou um terreno para a construção da Igreja dos Sagrados Corações. A pedra fundamental foi abençoada pelo próprio Dom Cabral, em 16 de maio de 1943.
E – Missão interminável?
PE – Percorria as ruas a pé, pelas trilhas e pelas montanhas da cidade, onde quer que os enfermos se encontrassem, até que em meados do mês de agosto, o enfermo fui eu mesmo. Não havia medicamentos para a febre tifo que tinha contraído e esperei com ansiedade o meu fim. Queria tanto despedir-me do meu amigo e confrade, padre Gil. Ele custou a aparecer. Quando ele surgiu na minha porta, em 30 de agosto de 1943, disse-lhe apenas – “Padre Gil, como demorou a chegar!”. E me despedi. Finalmente, me despedi.
E – Uma vida inteira, uma bandeira de Saúde e Paz! Não foram termos abstratos mas traduzidos em ações imediatas e contínuas. Mais ações e menos palavras.
PE – Padre Damião, Santo Padre Damião do Molokai, foi meu conselheiro em todas as horas. Tão pequena e leve foi a minha missão, mas dediquei todo meu esforço em interceder com a Divina Providência, para aliviar o sofrimento físico e espiritual dos meus semelhantes. Nada mais.
E – Novamente, peço a sua bênção, Venerável e Santo Padre Eustáquio! Reafirmo, perante a humanidade, que o senhor teve o dom de trazer alívio e tranquilidade para tantas pessoas que o procuraram, mediante a sua santidade,  e que tantos e silenciosos milagres realizou. O senhor não se referiu nem uma vez, nesta entrevista, a qualquer feito glorioso que tivesse realizado. Tudo guardado no seu coração, como se nada tivesse acontecido. Pelos Sagrados Corações, descanse em paz.


Referências Bibliográficas
Andrade, José Vicente. Venerável Padre Eustáquio. Congregação dos Sagrados Corações. Belo Horizonte, 2004
http://www.vatican.va/news_services/liturgy/saints/ns_lit_doc_20060615_eustaquio_po.html
http://evangelhoquotidiano.org/main.php?language=PT&module=saintfeast&id=12527&fd=0
http://padreeustaquio.org.br/

sexta-feira, 14 de julho de 2017

RECONHECIMENTO DO ROSTO

No rosto, a alma das pessoas. O movimento dos músculos da face refletem o inconsciente. Desde o piscar dos olhos. A alegria e a tristeza. O rosto fala. As expressões faciais denunciam as emoções.



Quantos décimos de centésimos de segundo uma pessoa leva para reconhecer um rosto? Se a imagem desse rosto estiver armazenada no  seu cérebro, a imagem é imediatamente acessada.
Pode haver uma resposta negativa. A fisionomia humana altera a cada dia e a cada época da vida. Algumas imagens são deletadas, mas podem ser recuperadas. Tudo isso, sem palavras, pois quando as  pesquisas preveem que as palavras sejam apenas 7% da comunicação, muitos se admiram. As palavras são importantes e confirmam um pensamento, assim como a gesticulação,  o vestuário e até mesmo os adornos e a maquiagem. Representam símbolo, ícones ou indícios. Existem analfabetos para a leitura da natureza.
Agora, a Semiótica encontrou mais uma confirmação de uma vertente  de sua abrangência,  mediante  recente  pesquisa realizada. Em texto  publicado pela revista científica,  Cell Press,  pesquisadores dos EUA quebraram o código do reconhecimento facial feito com primatas. 
Todas as imagens das fisionomias ficam localizadas no córtex temporal inferior e receberam o nome de  “ patches.”
Pode-se potencialmente reconhecer seis bilhões de pessoas, mas não se têm 6 bilhões de células da face no córtex temporal inferior. Tinha que haver uma outra solução,  como detalhou Doris Tsao, professora de Biologia do California Institute of Technology – Passadena, EUA.
As pessoas sempre dizem que uma imagem vale mais do que mil palavras. Poderia mais dizer a imagem de um rosto vale cerca de 200 neurônios, pois foi quebrado o código do reconhecimento facial.
A pesquisadora exemplificou como a descoberta pode ser usada na ciência. Uma consequência prática dos resultados é que, agora, pode-se reconstruir o rosto que um macaco que está vendo,  monitorando-se atividade elétrica de somente 205 neurônios do cérebro dele. Pode-se imaginar também aplicações na área policial ou jurídica, quando consegue-se reconstruir o rosto de uma pessoa, analisando-se a atividade cerebral de  uma testemunha.

Cell Press, The code for facial identity in the primate brain. Doris Tsao and Roger Tootell Vol 169, issue 6. P1013 – 1028 – Full text HTML - PDF

quinta-feira, 1 de junho de 2017

COMPORTAMENTO POSITIVO

Todo comportamento tem uma intenção positiva. 
Como juntar num mesmo balaio as intenções positivas dos heróis, dos santos e dos bandidos malfeitores?


Tal assertiva, “todo comportamento tem uma intenção positiva” como um pressuposto da Programação Neurolinguistica(PNL), envolve uma derrubada de modelos que vai deixar muitas pessoas assustadas ou incrédulas. Intenções positivas? Como aprofundar o pensamento dentro dessa direção? Pois no inconsciente de cada pessoa só é autorizada a execução de ações que passarem no seu crivo de julgamento como sendo as corretas e adequadas para aquele momento.  Parece um círculo de giz, onde fica paralisado um peru. Não encontra alternativa de fuga, de saída, com melhor resultado. Fica parado e preso. 

Todas as pessoas têm uma ecologia interna que garante a manutenção e equilíbrio do seu sistema. 

Assim, há necessidade de surgir uma melhor solução, naquele momento, colocando esse sistema em funcionamento. Cada pessoa tem capacidade para tomar qualquer decisão na sua vida. Para ela, tudo será feito corretamente. E zaz!!! Vai em frente. Cria argumentos e justifica cada um deles, de acordo com o seu termômetro, no seu próprio tribunal interno. Pode manter um diálogo com os seus “diabinhos” que vagueiam no seu pensamento. Pode ser também um monólogo, dada a sua força de convicção. Surge, para ele, naquele momento, a autorização para a execução. O julgamento foi realizado. Os seus juízes podem dar a sentença. Não está em jogo a qualidade intencional desses juízes do seu tribunal. As ações imaginárias nascem do inconsciente e caem no poder judiciário, inevitavelmente. É o primeiro passo desse itinerário. Se essas ações forem aprovadas, quando passadas nos crivos dessa peneira, a sentença vem imediata, pronta, límpida, para ser colocada em prática, no poder executivo. Essa sentença tem, consequentemente, uma intenção positiva para essa pessoa, naquele momento, qualquer que seja ela.

Complicado? Nem tanto.
  • “Vou comprar uma moto hoje. Tenho condições financeiras. Ou posso comprar a prestação? Há muitas motos no mercado, a bom preço. Transporte individual e rápido. Sim... o trânsito está pesado, eu perco muito tempo no traslado até minha loja. Vou economizar com despesas de ônibus ou táxi. Ganho tempo. Tempo é vida. Vou viver mais. Posso chegar a casa mais cedo.” Eis o tribunal em ação. Entram, logo, os advogados de acusação:  “Olha o perigo! Acidentes. Já tem licença para dirigir motos? Primeiro, a habilitação. E assaltos? E dia de chuva? E o frio do vento? E esse capacete pesado que tem que usar?”  E por aí vai o processo, aumentando precariedades. A ecologia interna. Quem vencerá? A vitória será uma intenção positiva, qualquer que seja ela.
  • Muitas vezes, não há tempo de convocar um tribunal e a decisão tem que ser imediata. Uma senhora, assediada grosseiramente na rua, deu um tapa na cara de um homem desconhecido.
  • Um homem invade uma residência, agride, mata e rouba. O seu tribunal autorizou essa ação. Para ele, na sua concepção, provinda da sua formação, da sua ecologia interna, era uma oportunidade imperdível.
  • E Hitler? Julgava-se defender, aumentando o seu poderio militar num desejo de se vingar de agressões de nações impertinentes? Pelo sim, pelo não, o tribunal interno desse “führer” estava em dia com as suas melhores e mais positivas intenções. Convicto e inflexível.
  • E o presidente Truman despencou uma bomba atômica em cima de Hiroshima, em 1945. Intenções positivas? Para ele, naquele momento, seria um comportamento mais do que positivo e oportuno na arte da guerra. Como herói repousa em seu “pantheon”.
  • E o lobo diante do cordeiro, cá em baixo, que sujava a água que ele bebia lá em cima? Razões também imaginárias. 
  • Por que um jovem escolhe uma profissão? Medicina ou uma carreira religiosa? Vai ser médico ou ser padre? Tudo passa por julgamentos. Vence a melhor decisão para ele, naquele momento, no tribunal da sua ecologia interna. 
  • E a decisão de São Francisco de Assis? Abandonou tudo, família, riqueza, poder. Com os pés descalços, sol inclemente, estrada de pedregulhos. Depois a neve, o sofrimento. O desejo de servir à sua maneira. Seguir o seu caminho, prestando ajuda a quem quer que seja. Foi autorizado pelo seu tribunal, em intenções positivas, ecologicamente.
Eis a questão!!! Se todo comportamento tem uma intenção positiva, todos têm o direito de se julgarem inocentes, internamente. Pesquisa realizada num presídio nos EUA, com criminosos de alta periculosidade, revelou que quase todos se julgavam inocentes e foram vítimas de um ato inconsequente. Alguns ainda diziam que fariam tudo da mesma forma como tinham feito. Ninguém se condenava internamente. Alguns culpam uma leitura mal interpretada da sentença do seu tribunal. Podem lamentar-se.

Por outro ângulo, constata-se que, de arrependidos, o inferno está cheio. 


Comportamento positivo

Todo comportamento é positivo
Tanto estranho que possa parecer 
E faz esse agente então perceber
Que ele se tornou mais competitivo.

Hitler não cometeu nenhum deslize
Napoleão expande o território
Bomba atômica, acidente ilusório,
Caiu do céu, foi o que Truman disse. 

De arrependidos o inferno está cheio!
Sempre fazendo o que julgava certo
E o ser humano justifica o meio.

Nos campos de guerra há uma mina perto
E alguém está colhendo um pranto alheio
Só pensando em si, julgando-se esperto.



Referências:

Seminários didáticos com Milton H. Erickson. Zeig.Jeffrey R.Psy II, SP
A estrutura da Magia. Bendler. R e Grinder. J.   

terça-feira, 23 de maio de 2017

GANHO SECUNDÁRIO

Tudo que sobe, desce ! E o que vai, volta. É a lei das consequências: “Tudo que for enviado, retorna para o emissário, na mesma dose, no endereço certo”.   



Você sabe o que é “ganho secundário”?
É a mola do comportamento humano,
É um gatilho certeiro, sem engano, e nada se faz nesta vida sem ganho imaginário.

Bom dia, boa tarde ou boa noite - são iscas para uma resposta do mesmo nível. Se não houver essa resposta imediata, abre-se uma lacuna de incompreensões.

A cordialidade e a gentileza são chaves que abrem um bom relacionamento interpessoal. Sem essa resposta imediata, imagina-se que se trata de uma pessoa mal-humorada, nervosa ou até mesmo agressiva. Esta pessoa pode estar trazendo na testa uma legenda invisível: “afaste-se de mim”.  Tudo porque procura-se um ganho secundário com essa simples saudação.

Mas o ganho secundário não fica nisso. As ações humanas têm um objetivo imediato e outro subjacente. Inconsciente ou subjacente, ele existe. Por isso, são dois objetivos que movem o comportamento humano. Uma viagem, uma compra ou uma venda de qualquer coisa, um passeio, um convite, uma discussão, uma briga, um namoro, um casamento, um divórcio, uma tristeza, uma depressão, um presente, um cartão, um parabéns, uma sentença judicial – e em quaisquer outras ações assemelhadas, existe, dentro delas, incorporado, um ganho secundário que somente  esse agente guarda secretamente.

Nada de neuroses. São comportamentos normais de todo ser humano. A neurose seria um modo próprio ou bizarro de ver e interpretar a realidade, dependendo da intensidade.  Essas idiossincrasias são apenas características pessoais.  Cada ser humano tem seu cheiro. Que seria da humanidade se todos tivessem a mesma percepção da realidade? Ou se todos pensassem da mesma forma? Antes de ser uma neurose é uma cor que se estende e embeleza o mundo. Nada de incutir sentimentos de culpa por esses transes. A vida é bela para todos, também por causa disso.

E tem mais... concluindo – “ninguém vai beber cicuta sem esperar um resultado, guardado secretamente, dentro de seu coração”. Ninguém vai se torturar gratuitamente.  

E quem não quer levar vantagem em tudo?  Claro que todos querem. Nas decisões, cada pessoa escolhe, deterministicamente, o melhor para si. Isto é simples, claro e cristalino, dentro da psicologia da normalidade. E quem vai escolher o pior para si? E nem o ”menos bom”, por assim dizer? Há contestação?


Você sabe o que é “ganho secundário”?
É a mola do comportamento humano,
É um gatilho certeiro, sem engano,
Nada se faz sem ganho imaginário.

E quem não quer levar vantagem em tudo?
Esta é a mais velha lei do benefício
Inconscientemente, um artifício,
E assim acontece, desejo mudo.

Quem der um “bom dia” com muito amor
Recebe o retorno, ganha emoção,
Agradece, alegrando o emissor.

E ninguém vai beber cicuta em vão!
Espera um resultado promissor,
Guardado dentro do seu coração.





Referências
- Seminários didáticos com Milton H. Erickson.Zeig, Jeffrey R. Psy II. São Paulo
- Sua voz está traindo você. Boone, Daniel R. Artes Médicas, 1996, Porto Alegre
- Comunicação Global. Ribeiro, Lair. Curso PNL, 2013   

segunda-feira, 15 de maio de 2017

PARÓQUIAIS- SÉRIE DE SONETOS

Paroquia é o território e a população que está subordinada eclesiasticamente a um pároco. Também se aplica como sinônimo freguesia. Utilizada desde as mais antigas origens do Cristianismo para designar uma comunidade cristã local.




Paroquiais dois sonetos entrelaçados. Incidentes não intencionais, claro, fazem humor sem ofensas a qualquer tipo de religião ou seita. Ninguém está impune de cair numa armadilha verbal em tocaia.


O BATIZADO

Um ricaço queria batizar
Seu cão vira-lata de estimação.
Mas o padre temia a excomunhão
Certo que o bispo iria contestar.

Mas a troco de uma paróquia linda
Tudo se consegue em plena harmonia,
Floresce a paróquia em plena alegria
E ajudava o ricaço mais ainda.

Um dia o bispo em visitação
Descobre o escândalo do batizado
O que pôs o padre em pura aflição.

Pelo bispo o ricaço foi chamado
Demonstrando rara admiração:
E quando o cãozinho será crismado? 

 

 

ANTICONCEPCIONAL

 Enfim o bispo liberou a pílula.
E para os padres fez palestra
Para confirmar que nada mais resta
Dessa proibição tão ridícula.

E a pílula anticoncepcional é
Mais uma das maravilhas do mundo,
Liberando as mulheres e foi fundo
Controlando a natalidade até.

Declarou a liberação total.
E quem tiver dúvida da premissa
Tudo posso responder afinal.

E um dos padres questionou com preguiça,
Cumpridor do dever paroquial:
                                        - Pra tomar antes ou depois da missa?

segunda-feira, 8 de maio de 2017

PAIXÃO - SÉRIE DE SONETOS

A paixão é capaz de alterar aspectos do comportamento e pensamento da pessoa. A impulsividade, o desespero e a inquietação são outras características que costumam estar associadas ao sentimento de paixão.


PAIXÃO  - dois sonetos bem casados, contornam sentimentos idos e havidos. A história da vida não é escrita em rascunho. Cada um cai no espinheiro que lhe aprouver. Se entra na fogueira, sai chamuscado.





UNIDOS PARA SEMPRE

Casamento é festa e muita alegria
Duas famílias, traço de união,
Com champanhe, luzes no coração,
Roupas novas, presentes, fidalguia.

Pelo momento solene do sim
E nas promessas de fidelidade
Salta dos lábios a sinceridade
Reina o amor pelos caminhos sem fim.

-Unidos estamos por toda a vida!
Disse a noiva em lua de mel à vista,
Vaticina feliz e comovida.

E o noivo sente o peso da conquista.
Abre o coração em contrapartida:
-Não estou eu assim tão pessimista.





PENSEI MELHOR

Senhor Comissário, estou aqui de novo,
Sempre buscando a sua proteção:
Minha mulher sumiu – que ingratidão!
Misturou-se pois no meio do povo.

Sofrimento demais com a sua ausência
Sozinho em casa fiquei a pensar
E de tanto pensar e soluçar
Julguei-me ficar em plena demência.

Suspenda os meus pedidos de procura
Já não tenho mais nem um só lamento
Ficar só me deu prazer nesta altura.

A vida aceita qualquer argumento
A água vai batendo na pedra e fura
Pensei melhor – eis o meu juramento

  

quarta-feira, 3 de maio de 2017

AS BURGUESAS - SÉRIE DE SONETOS

Soneto – velho formato do gênero lírico, tem suas palavras enjauladas. Não basta ser poeta. Tem que ser, antes de tudo, um artífice.

 

Estrutura rígida, desde Petrarca e Dante Alighieri. Sintético e objetivo. Sem enrolação. Nele cabem a paixão e o amor. Agora vem o humor e o rancor. As palavras foram feitas para rir ou para chorar. Soneto causa efeito retardado. Pensar e meditar.




A RAINHA

Dois cavalos brancos são atrelados
À rica carruagem da rainha.
No traslado tanta elegância tinha
Para, em pompas, solenes perfilados.

Num momento, um cavalo solta um gás,
O que fez a rainha enrubescer
Fato que não podia acontecer
E desgosto o acontecimento traz.

Logo, ao convidado a rainha vem,
Neste momento, desculpas pedir,
E com o leque o nariz tapa também.

E o convidado vem pronto acudir:
-Majestade! Pois fica tudo bem!
Julguei que fosse o cavalo, ao partir.




A CONDESSA

A condessa ficou compadecida
Quando ela viu da sua alta janela
De sua mansão, muito rica e bela,
Um pobre homem em fome desvairada.

Esse homem comia grama na praça
Com imenso furor dessa fome vinha
A grama seca que na praça tinha
Tanto comia!!! Era tudo de graça.

E a condessa ordenou ao sentinela
Que abrisse os portões e deixasse assim
Que esse homem entrasse, que a vida bela.

E tendo o coração em paz, enfim,
Sugeriu com voz suave e singela:
- Há grama mais verde no meu jardim.