terça-feira, 24 de outubro de 2017

O BARROCO – O QUE RESTA

Tornou-se um modelo arcaico e seiscentista. Sintetizando – excesso de enfeites, prejudicando o principal. Dói mais na comunicação oral, incorporado à personalidade.



O mundo foi infectado pelo Barroco. Foi, a partir do Concílio de Trento, realizado entre os anos de 1545 e 1563 e que teve como consequência uma grande reformulação do Catolicismo. O povo era analfabeto e precisava de motivos de visualização dos santos para garantir a fé. As artes, após o Renascimento, teriam pepel importante para o Catolicismo. Era a ordem de Roma. Assim, as imagens dos santos se espalharam comercialmente, com artifícios especiais para confirmar o sofrimento e a santidade das personagens. Chega-se ao sadismo artístico, com lágrimas, sangue, torturas. As peças continham pedras preciosas e ouro. Valiam o quanto pesavam.


O Barroco perdeu terreno mas a tese da visualização tem permanecido no mundo moderno e permaneceu no inconsciente e no comportamento do povo. Belo Horizonte (1897) ao ser edificada, teve a vila de Curral Del Rey, de 150 anos, totalmente destruída para dar lugar a uma cidade moderna. Até as catedrais foram destruídas. A matriz da Boa Viagem foi derrubada na década de vinte, sob protestos. O que restou foi a fazenda que hoje se tornou o Museu Abílio Barreto. Único vestígio.


O que restou? A mentalidade barroca que atravessa os séculos. A comunicação não foi perdoada. Assim, as formas literárias impressas ou orais, estão contaminadas. O poder judiciário é o maior depositário do arcaísmo barroco. Mesmo o Supremo. Retorcido como um cipoal verbal, gestos e esgares, paradas obrigatórias, prolixidade e outras doenças incuráveis. O leitor ou o ouvinte é sempre a principal vítima a ser torturada. Essas idiossincrasias antiquadas afetam o Congresso Nacional, com discursos e falação de políticos inábeis, repetição e gritos desnecessários. Hoje o microfone resolve. Isso, nesse conjunto, tornou a oratória um formato literário decadente e inexpressivo. Quando há discursos, todos se afastam. Há remédios? Os textos longos de suplementos literários estão infestados de cultismo exagerado. Atualizar na semiótica para melhores resultados. Quem não se adapta desaparece. Se alguém está fazendo alguma coisa como sempre fez, alguém está fazendo diferente e melhor. Quem viver, verá.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

ABRIGO DE MENORES DIVINA PROVIDÊNCIA

As duas afilhadas do abrigo foram convidadas a passar um fim de semana com o padrinho Perilo Neto e com a madrinha dona Carolina. Para que elas não se sentissem isoladas ou tímidas nessa visita, foi autorizado a cada uma escolher uma colega para passar o fim de semana fora. Assim, Márcia indicou a colega Maristela, e Joviana trouxe a colega Heleninha.  Formavam um pequeno grupo de amigas usufruindo de um passeio fora da sua comunidade. A alegria dessas meninas era irradiante. Sentiam-se seguras e amparadas por dona Carolina e pelo marido. 


Dona Carolina era previdente e pediu ajuda a Isa, assistente social.
- A Maristela está muito triste. É normal essa tristeza dela. Ela se lembra da mãe e começa a chorar, contagiando as colegas. Elas têm problemas semelhantes de modo que embarcam logo nessa tristeza, puxada pela Maristela.
- Compreendo bem as razões dessas jovens – acrescentou a professora Isa. Vou ficar bem por perto dela para demonstrar claramente a minha intenção de ajudar.
- Isso mesmo. Você percebeu bem a situação. Acompanhe a Maristela especialmente. Ela está muito ressentida e eu mesma fico emocionada com isso. Eu me entrego facilmente aos problemas e aflições dos outros.
- Neste caso, penso que vou poder ajudar. Eu também me entrego demais aos clientes. Profissionalmente é um erro. Eu me envolvo e depois sofro com eles.
A professora Isa se apresentou às meninas, dizendo-se amiga de dona Carolina e que iria com elas no passeio. Cumprimentou uma por uma, perguntando por seu nome e idade. Foi fácil o acolhimento e a integração de dona Isa ao grupo. Quando entraram na van que iria levá-las ao Shopping, Isa procurou discretamente ficar ao lado de Maristela. Assim poderiam manter um pequeno diálogo inicial. Não foi difícil encontrar palavras para iniciar um relacionamento afetivo.
- Você já foi a um shopping, Maristela?
- Nunca. Minha mãe trabalhava o dia inteiro e estava sempre cansada.
Isa não queria assunto “mãe”. Procurou outros caminhos.
- A Márcia é a sua melhor amiga?
- É. Ela que me trouxe para conhecer o Palácio. Ela é como a minha mãe.
- É bom ter uma amiga como companhia.
- Isso é o mesmo que a minha mãe dizia.
- E como se chama a sua mãe?
- Isabela.
- Meu nome é Isa. Só falta um pedaço para termos o mesmo nome.
- É.
- É só acrescentar “bela”.
- Minha mãe é bela.
- Quer dizer que eu sou feia?
- Não. Você é bela também.
- Obrigada. Fiquei alegre. Ainda bem que eu sou bela também.
- É bela.
Quando desceram da van, Isa deu a mão a Maristela para descer. Depois, foram andando no mesmo ritmo, lado a lado. Entraram no shopping. Os olhos das meninas ficaram deslumbrados. Maristela correu para o lado de Márcia, fazendo comentários em segredo. Vitrinas e mais vitrinas. Jogos eletrônicos. Patinação no gelo. Tudo deslumbrante, com tanta gente bonita e bem vestida. Roupas e cores. Adultos e crianças andando, pesquisando. Escada rolante? Riram de medo. Riram porque Joviana perdeu o passo na hora de entrar na escada e quase caiu. Riram demais. Na subida da escada, uma olhava para outra e elas não continham a alegria. Bastava uma escada rolante para encher de novidade esse dia festivo. Dona Isa, sempre distraidamente, estava ao lado de Maristela. Quando chegaram às bilheterias dos cinemas, dona Isa deu a mão à menina  e elas passaram a caminhar juntas. Assistiram a um filme de desenho animado. Sucesso total. Agora, a praça da alimentação. Sentaram-se e ficaram olhando para as mesas vizinhas. Que estavam comendo e bebendo essas pessoas? E elas, que iriam comer? A guia já tinha providenciado o lanche para o grupo, colocando sobre a mesa uma variedade de refrigerantes e sanduíches. Cada uma bebeu e comeu o que quis. Quando Maristela ia pegar um sanduíche, olhava primeiro para Márcia. Márcia autorizava com os olhos. Festa. Tudo festa.
A professora Isa estava sempre ao lado de Maristela, acompanhando-a discretamente como se fosse um encontro espontâneo. Enquanto todas estavam se divertindo, Maristela já tinha tomado seu refrigerante e olhava vagamente para o ambiente, perdida no espaço deslumbrante da sala de alimentação. Foi também com espontaneidade que a professora resolveu manter um pequeno diálogo.
- Tantas coisas diferentes, não é, Maristela?
- É.
- Gostou do refrigerante?
- Gostei.
- Quer mais um pouco?
- Não.
Estava difícil manter um diálogo mais fluente.  Tentou um tema mais pertinente.
- De que refrigerante você mais gosta?
- Minha mãe nunca comprava refrigerante.
- Por que ela não comprava?
- Não sei. Acho que ela não tinha dinheiro.
- Ahn! Em que bairro vocês moravam?
- Barreiro. Barreiro de Cima.
- E sua mãe continua morando lá?
- Não. Ela foi embora.
- Foi embora? Pra onde?
- Chegou um homem lá na vizinha e disse que ela tinha ido pro céu.
- Ahn! Você estava morando com a vizinha?
- Desde que a minha mãe foi para o hospital, eu fiquei dormindo na casa da vizinha.
- E seu pai?
- Não tenho pai.
- E irmãos? Parentes?
- Não tenho irmãos. Não conheço parentes.
- Então você ficou sozinha?
- Fiquei.
- E como você veio para a Divina Providência?
- Não sei. Uma mulher veio me buscar e disse para eu ir.
- Você foi sem saber para onde?
- É.
- Sentiu medo de ir com essa senhora?
- Senti.
- Você gostou dela?
- Gostei.
- E as suas roupas, brinquedos, livros, cadernos?
- Essa mulher foi à minha casa e fez uma mala. Ajuntou tudo.
- E a vizinha?
- Ela disse que eu tinha que ir. Não podia ficar morando na casa dela a vida inteira.
- E as coisas da sua mãe?
- Não sei.
- A casa era de sua mãe?
- Não.
- De quem era?
- Acho que era da minha vizinha mesmo. Minha mãe pagava.
- Ahn! Por isso você ficou muito triste?
- Sim.
- E agora?
- Não sei. Eu queria a minha mãe, outra vez. A Márcia falou que ela não volta nunca mais. A mãe dela também já foi para o céu, e ela disse que vai viver sozinha no mundo.
- Você vai ser feliz e tudo vai se arranjar.
- Não sei. Não tenho nada nem ninguém.
- O que você mais gostaria de ter?
- Não sei. Queria uma mãe só pra mim.
- Você vai encontrar outra mãe, pelo menos parecida com a primeira. Quantos anos você tem?
- Eu ia fazer oito quando minha mãe foi para o hospital.
- E agora?
- Ainda tenho oito. Meu aniversário é no dia primeiro de maio.
- Quanto tempo está no abrigo?
- Tem pouco tempo.
- Como é a vida lá no abrigo da Divina?
- Tem escola. Tem brincadeiras. Tem escola. Tem brincadeiras. Tem trabalho.
- Você está gostando de lá?
- Estou.
Quando estavam nessa conversa, terminaram de lanchar. Todas as pessoas se levantaram e foram caminhando em direção à saída para pegar a van. A tarde estava acabando, o sol quase não aparecia mais. Ficou um pouco escuro. As luzes estavam se acendendo e o shopping iluminado era muito mais bonito. Mas elas tinham que voltar. A professora Isa continuava sempre perto de Maristela e conversavam discretamente. Isa procurava manter essa conversa sem perder o fio da meada, para que a menina não tivesse mais aqueles momentos de depressão, de tristeza profunda e contagiante.
Foram diretamente para os seus aposentos  logo que chegaram, e a professora Isa despediu-se das meninas, uma por uma. Chegando a vez de despedir-se de Maristela, deu-lhe um abraço especial, beijou-a dos dois lados e perguntou, finalmente, em tom confidencial:
- Foi bom, Maristela?
Maristela não respondeu. Continuou abraçada à professora e, em soluços, disse que a professora era a pessoa que mais parecia com sua mãe. As lágrimas rolaram e a professora Isa levou-a para uma saleta vizinha, dizendo que viria para o batizado dos filhos de dona Carolina, no dia seguinte, e que iriam conversar muito mais. Limpou as lágrimas de Maristela com um lenço que tinha na bolsa e garantiu que iriam ser muito amigas para sempre. Maristela disse que sim e sorriu levemente. A professora saiu lentamente e depois de alguns passos, parou, olhou para trás e deu mais um adeus e lançou um beijinho. Maristela estava parada e retribuiu com as mãos o beijo da professora. Ficou ainda parada no corredor até que a professora entrasse na outra sala e desaparecesse. Assim, ela retornou ao convívio das colegas que estavam eufóricas com os presentes, com o shopping, com o lanche da praça de alimentação, com a escada rolante e com tudo, tudo mais. Era sábado. No domingo haveria o batizado dos gêmeos.  
Tudo parecia um sonho, e Maristela foi chegando ao grupo com cara de resto de tristeza. Pegou o pacote com suas roupas novas, abriu e estendeu o vestido novo em cima da cama. As colegas já tinham experimentado as roupas compradas e ficaram ajudando Maristela a vestir. “Ficou muito certinho”, exclamaram. Maristela também gostou. O dia foi passando rapidamente, a noite chegando e, já cansadas com tantas novidades, sentaram na frente do televisor do quarto e foram ver desenhos animados. Não estavam pensando em programas de televisão. Queriam viver momentos de ventura por elas mesmas. Agora, sim. Cansadas, sozinhas no quarto, podiam conversar também muito à vontade. Quase às nove horas da noite, chegou dona Carolina, acompanhada de duas amigas que vinham conhecer as meninas do orfanato. Depois das apresentações, veio a hora do lanche da noite. Lanche da noite? Sim... Isso mesmo. Dona Carolina convidou-as para o salão nobre, onde seria servido o café com leite e refrigerantes. Pão e biscoitos. Conversaram livremente, como se estivessem nas próprias casas, mas Márcia estava sempre ao lado de dona Carolina, como se a estivesse protegendo, ou como se estivesse querendo dizer: “Dona Carolina, minha madrinha, é minha.” Grande sentido de posse. Não sobrava nada para ninguém. Depois, foram conduzidas aos seus aposentos em despedidas e beijinhos. O dia tinha acabado. Que pena!


Em nome do filho. Rogério Alvarenga. Editora 3i, Belo Horizonte, 2014

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

BUSCA E APREENSÃO DE NICÁCIO GÖEBEL


Não maldigas o rigor da iníqua sorte, por mais atroz que seja e sem piedade, dizia, em soneto, D.Pedro II. Pois mal rompera a madrugada, no alto das montanhas do bairro Belvedere de Mináglia, duas viaturas policiais estacionaram em frente à residência de Fausto Leonísio Brasco.


Desceram quatro soldados armados, um cabo e um sargento. Da outra viatura, dois homens de colete preto. A rua estava deserta. O sargento adiantou-se e, ao invés de chamar pela campainha do portão, resolveu bater com o cano do revólver na porta principal da residência. Nicácio Goëbel já pegava a sua moto para dirigir-se à escola. Dona Amélia veio atender e teve um susto imediato.
- Este aqui é o mandato de busca e apreensão, assinado pelo delegado, doutor Carlinomota. Estamos procurando o estuprador Nicácio Goëbel.
Já estavam os oito policiais dentro da sala da residência, com vozes alteradas em grande agressividade. Juntam-se os filhos e filhas de dona Amélia, todos em trajes de dormir. Também Fausto Leonísio, de bermuda e sem camisa.
- Que é que vocês querem? Como é que vão entrando assim em domicílio? Isso é uma arbitrariedade.
- Viemos buscar esse pilantra do Nicácio Goëbel, que, por sinal, meus companheiros já puseram as pulseiras nele. Ele vai conosco. E o senhor fique calado que vamos fazer as buscas recomendadas. Veio pedido expresso do Secretário de Estado de Segurança Pública e recomendação do capitão Siqueira, da capital.
Antes de o sargento terminar o seu discurso, seus companheiros já estavam invadindo quarto por quarto, armário por armário, revirando roupas e objetos das gavetas pelo chão, procurando não se sabe o quê. A casa ficou um verdadeiro monte de roupas e de diversos objetos de serventia e as próprias gavetas vazias jogadas pelo chão.
- Isto não vai ficar assim, sargento. Você vai pagar caro por isso tudo. Sua cara está marcada pela nossa família e, juntos, vamos acabar com vocês, mais hoje mais amanhã.
- E fica calado e quieto aí, coroa. Senão vai sobrar pra você agora mesmo. Viemos buscar só um, mas podemos levar dois ou três. Tudo vai ser lucro. Você tem um bandido estuprador dentro de casa e está reclamando de quê?
- E pra levar meu filho tem que me levar primeiro!
- Passa a algema nele, gente. Tem lugar pra mais um.
As filhas e filhos em desespero, alucinados, em prantos, agarradas ao pai e à mãe, choravam aos gritos. Os rapazes olhavam impassíveis, aguardando os acontecimentos. Levaram as mochilas dos filhos, jogadas dentro das viaturas. Empurraram Fausto Leonísio pra dentro da viatura policial.
- Vocês vão se arrepender! Sabem com quem estão falando?
O sargento olhou para os companheiros e todos riram com zombaria.
- Essa história de quem sou eu, é velha, cara. Arranja outra. Já ouvimos isso centenas de vezes. Você sabe com quem está falando? Estou falando com o pai de um estuprador violento que vai pagar caro. Vamos embora. Tem mais: “Qualquer hora voltamos pra fazer outras apreensões.”
Na residência não havia computador, mas levaram uma máquina fotográfica que estava sobre a mesa e um gravador de som. Parece que pegaram outros objetos que estavam disponíveis, mas ninguém viu realmente tudo que levaram. Nas gavetas não encontraram nada que pudesse incriminar qualquer das pessoas da casa. Apenas a reviravolta das roupas pessoais e roupa de cama que estiveram cuidadosamente dobradas nas gavetas. A família nunca tinha presenciado nada igual. Difícil será ouvir todas as lamentações de dona Amélia, com toda a sua carga de espanto, de ódio e de desespero. Mesmo assim, amargurando a agressão sofrida, não se esqueceram de que Nicácio tinha sido levado, algemado. Que seria? Dona Amélia sofreu mais do que se fosse um dos seus filhos. Ele lhe tinha sido confiado pessoalmente pela irmã. Haveria de cuidar dele, acima de todas as coisas de sua vida. Responsabilidade em que não lhe era permitida qualquer fraqueza. Antes de iniciar o rearranjo de sua casa, telefonou para o doutor Gumercindo Taveira, advogado da empresa de seu marido.
- Socorro, doutor Gumercindo Taveira! De madrugada, fomos vítimas de um bando de policiais que invadiram nossa casa, algemaram meu filho Nicácio. Por fim, algemaram Fausto Leonísio também. Ele não suportou tanta agressividade e teve que reagir à altura. Foi algemado e levado na viatura cheia de policiais, mesmo estando de bermuda e sem camisa. Uma covardia que nunca imaginei que pudesse assistir nesta minha vida. Nicácio estava algemado, acusado não sei de quê. Devem ter ido para a delegacia, por ordem do delegado Carlinomota.
- Dona Amélia! Estou abismado. Estou partindo para a delegacia, imediatamente. Qualquer que seja a situação vou tomar as necessárias providências. Sinto muito por tudo que aconteceu. Fique tranquila que vou resolver tudo e exigir as reparações pelos danos causados.
- Obrigada, doutor. Confio totalmente na sua competência.
- Vou passar na sua casa para assinar uma autorização de autuação. 
As viaturas sumiram na curva da rua, com as sirenes ligadas. Nesse momento, já um grupo de pessoas, vizinhos apreensivos, se postavam ao redor da casa, oferecendo préstimos, ajuda, conforto, carinho para a família de Fausto e Amélia.
Na delegacia, houve o desembarque das encomendas. Nícácio, algemado, foi conduzido para um depósito de presos. Fausto Leonísio, calado, aguardaria o delegado Carlinomota, que deveria chegar por volta das dez horas. Eram ainda sete horas desse malfadado dia, imprevisível, atormentado, tenebroso.
O delegado não estava bem-humorado quando chegou. Era uma segunda-feira nublada, cinzenta, como geralmente são as segundas-feiras. Ao chegar, não olhou para nenhum dos lados. Apenas para frente e seguiu com passos largos. Os militares que estavam em plantão se afastaram e ele passou direto para o seu gabinete. Abriu a porta com violência e bateu-a de volta, assustando a todos que estavam nas salas ao lado. Leonísio ficou esperando. Dona Amélia aguardava a proteção jurídica do advogado da família que estava a caminho da delegacia. Mas seus clientes estavam incomunicáveis até àquela hora. Nicácio foi obrigado a tirar toda a roupa, ficando apenas de cueca, depositando suas roupas numa sacola que lhe foi entregue. Em seguida, foi encaminhado para um grande salão, onde estavam outros dez ou doze homens, também com os mesmos trajes. Todos na cela se admiraram com um adolescente encarcerado e quiseram saber logo o motivo de sua detenção.
Por outro lado, Fausto Leonísio, que foi algemado quando usava apenas uma bermuda preta e uma sandália de dedo, foi colocado numa cela em separado, isolado de tudo. Deram-lhe uma camisa azul, usual da delegacia, para usar quando chegasse a hora de seu depoimento. Tais procedimentos, tanto com referência ao jovem Nicácio, quanto ao senhor Fausto Leonísio, foram feitos desconsiderando as suas condições naturais. Um, por ser menor de idade e outro por ser idoso, com aproximadamente 80 anos de idade, major reformado do Exército Nacional e venerado ex-pracinha da Força Expedicionária Brasileira, FEB, em sua vitoriosa participação na Segunda Grande Guerra Mundial de 1939/1945.
O advogado da família teria, pois, argumentos legítimos para a defesa desses possíveis réus, violentamente conduzidos à delegacia, sem um motivo claro e justo para que tal fato pudesse ocorrer. Havia, pelo que foi declarado pelo sargento, comandante da guarnição, uma ordem de busca e apreensão, vinda do próprio Secretário de Estado de Segurança Pública. Nessas circunstâncias, a ordem superior deveria ser cumprida, entretanto, não revestida do inusitado rigor. De qualquer forma, essa ordem vinda de cima, teria que ser analisada também com os devidos requintes jurídicos, e responsabilizadas e assumidas pelas fontes de informação que ocasionaram essas determinações.
Tal secretário deveria ter recebido solicitações pessoais de algum outro componente do governo, possivelmente solicitações verbais, para efetuar esses procedimentos, recomendados à Delegacia de Polícia de Mináglia, o que viria a compor um quadro de corrupção administrativa. O advogado de defesa teria a oportunidade de avançar os seus tentáculos jurídicos para a defesa dos réus, inclusive para envolver esferas superiores e obter compensações justas e compensatórias pelos danos morais causados, além de denunciar esses procedimentos autoritários.       
Carlinomota, de terno e gravata, cabelo bem penteado, não cumprimentou ninguém na sua passagem até o seu gabinete. Trancou a porta a chave. A princípio, estava com o humor a zero. Dez minutos depois, por telefone, chama o sargento de plantão e pergunta o que está acontecendo de novo na Delegacia. O sargento, pelo computador,  transmite para o aparelho do delegado todo o conteúdo do caso.
- A ação de busca e apreensão feita pelo sargento 43 deu resultado, delegado. Ele trouxe esse cara que foi pedido pelo Secretário de Segurança Pública, e o pai dele também. Dizem que é um estuprador que está no depósito de presos, e o outro é o pai dele, que foi colocado na cela 2, porque dizem que é pessoa importante da cidade.
- Que mais?
- Na tela do seu computador tem uma relação das pessoas recolhidas na noite de domingo, gente variada.
- Estou vendo a relação e o boletim de ocorrência de cada um.
Não tinha passado meia hora quando chegou o doutor Gumercindo Taveira, com dois habeas corpus de seus clientes, major Fausto Leonísio Brasco e do seu filho Nicácio Goëbel, já assinados pelo Juiz João Luiz Loureiro. O advogado precisava falar com o delegado para as devidas providências. Essa a comunicação feita pelo sargento 43, o mesmo que tinha feito a ação de busca e apreensão.
- Doutor Carlinomota, bom dia.
- Bom dia, doutor Gumercindo Taveira. Garanto que o senhor está vindo para botar na rua algum bandido. O senhor não perde tempo, doutor.
- Realmente, delegado. Agora, nesse caso, meus clientes são dois. Penso que o senhor terá alguma surpresa. O sargento 43, como o senhor pode ler no B.O., Boletim de Ocorrências, agiu prontamente numa ação de busca e apreensão, mas acabou cometendo alguns deslizes.
- Sempre quem está tentando corrigir as alterações da ordem e da paz social são vítimas desses chamados deslizes. É comum isso. Vamos ver. Vamos ver isso, doutor Gumercindo. Olha aí, um estuprador e um desacato à autoridade constituída.
- Se o senhor acabar de ler o texto do pedido de habeas corpus verá que há problemas maiores que estão sendo alvo de justificativa, denunciada pelo Juiz doutor João Luís Loureiro.
- Sim. Vejamos, doutor. As observações e justificativas estão aqui abaixo. Mas aqui está. Esse juiz está mandando pra rua um estuprador?
- Observe bem, doutor. O jovem Nicácio Göebel é menor de idade, não pode ser algemado sem flagrante formado, nem ser colocado em depósito de presos comuns em delegacia. Isso constitui crime de violência e arbitrariedade. Pode ser colocado em responsabilidade criminal o sargento comandante da guarnição e, se tal libertação não for imediata, a imprensa estará alertada para documentar essa alteração da ordem, com possíveis punições generalizadas.
- Quero falar com o sargento 43, imediatamente.

Referência bibliográfica 
Alvarenga, Rogério. Em nome do Filho. Edidora 3i, BH, 2014



sexta-feira, 22 de setembro de 2017

GAROTA ESPERTA


O soneto vai além da poesia. A síntese predomina e nada de blablablá.





Até “bom-dia” já virou assédio
É a mulher, já é peça de porcelana
Prevenindo-se com tudo se engana
E por tudo tem que achar um remédio.


E a menina esperta trepou na escada
E deixou o público admirado
O panorama não foi reservado
Pelo trabalho, missão programada.


Mas a mãe, que tem mais experiência
“Eles querem é ver sua calcinha 
Esta é, pois, a grande maledicência”.


E nesse público só homem tinha.
“Sei disso... Tirei-a com antecedência.”
Mas a bela garota é bem espertinha.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

CHÁ DE FERRADURA VELHA


Ferradura velha era lavada e bem lavada. Depois, colocada numa panela cheia de água. Fervia por algum tempo e era tomado um copo dessa água antes das refeições. Uma crença ou um medicamento?


Este relato consta do livro da escritora Rosemary Penido de Alvarenga, em Morro Escuro, 1990, Gráfica Editora Dom Bosco, Itabira/Mg, 1990.

No início do século XX, as condições de vida e saúde eram precárias no interior do Brasil e também em Minas Gerais. Nada de medicamentos. As famílias recorriam a diversas formas para aliviar o sofrimento da dor e prevenção de doenças. A opilação, a anemia era constante. As crenças e os costumes dos antepassados eram determinantes. As receitas  de curandeiros, a benzeção e as ervas medicinais sempre que  possível. As hortaliças e as frutas eram cultivadas, mas não se imaginava que elas poderiam ser as verdadeiras fontes de energia. Havia recomendação quanto a chás de determinadas plantas medicinais, cujas receitas passavam pela tradição oral.

Com os pés descalços, as crianças e os adultos eram vítimas de verminose, barriga grande, palidez ou “marelão”. Não se pode ironizar esses costumes medicamentosos porque eram os que nos salvavam da vida primitiva.

O que é anemia – Anemia é um baixo nível de hemoglobina no sangue devido a pouca quantidade de células vermelhas ou a pouca quantidade de hemoglobina em cada célula. Ela atinge uma parcela considerável da população tendo uma grande repercussão na qualidade de vida.

O aumento do risco para diversas doenças infecciosas tem relação com a redução da resistência imunológica gerada pela anemia. E aqui as mulheres estão mais sujeitas porque correm maiores riscos de deficiência de Ferro devido à perda de sangue durante o ciclo menstrual.

Os sinais e sintomas da carência de Ferro não são específicos, necessitando-se de exames laboratoriais. Os principais sinais e sintomas são: fadiga generalizada, falta de apetite, palidez de pele e mucosas (parte interna do olho, gengivas), menor disposição para o trabalho.

Como fazer exames laboratoriais em 1910 num sítio ou fazendinha ou rancho perdidos nas vastas montanhas desse Brasil afora. Salva-se quem tiver mais imaginação. Por isso, estamos aqui. Uma crença ou um medicamento preventivo? 


Referência
"Morro Escuro", de Rosemary Penido Alvarenga.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

LA FONTAINE


Formiguinha estava muito cansada
Depois de um dia de trabalho duro
E viu , deslumbrada, do alto do muro
A casa da cigarra iluminada.

Tantas malas amarradas com fitas
- Estou em turnê, contratada, querida.
Pela Europa, deslumbrante e encantada
Nos salões de Paris, pelas conquistas.

Por tudo quanto de belo que eu fiz
Descobriram todo o meu esplendor
Notre Dame, Sacré Coeur ou matriz.

Que lembrancinha queres, meu amor?
- Vendo um tal de La Fontaine, em Paris,
Mate-o logo, pois é um farsante escritor.


quinta-feira, 7 de setembro de 2017

MORINGA OLEIFERA - UM SUPERMERCADO NUMA ÁRVORE


Moringa, a árvore mágica. Suas folhas verdes contêm mais cálcio que o leite de vaca e mais ferro que o espinafre



Moringa oleifera é uma planta da família Moringaceae, mais conhecidas simplesmente por moringas. As folhas e vagens são utilizadas na alimentação humana. A árvore em si não é muito robusta, mas desenvolve ramos que crescem até cerca de 10 m de comprimento, podendo a planta alcançar 12 metros de altura. Sua principal riqueza está no altíssimo valor nutricional das suas folhas e frutos. Considerada como uma panaceia para muitos males – de tratamento da malária a dores de estômago – e um alimento com alto valor nutritivo e com uma excelente composição de proteínas, vitaminas e sais minerais, a moringa é uma daquelas árvore que todos habitantes dos trópicos deveriam ter no quintal de casa. Das 14 espécies identificadas, duas são as mais populares. Nativa das encostas do Himalaia, a Moringa oleifera foi reconhecida pela medicina ayurvédica como uma importante erva medicinal há quatro mil anos. A planta indiana acabou sendo disseminada por todo o mundo e chegou até o Brasil.


A farmácia
Esta planta é considerada por botânicos e biólogos, um milagre da natureza. Uma esperança para o combate da fome no mundo. As folhas de Moringa oleifera tem todos os aminoácidos essenciais, gorduras benéficas e óleos ômega. Ricas de cálcio, ferro e muitos outros minerais vitais, bem como uma grande variedade e grandes quantidades de vitaminas, antioxidantes e sustâncias anti-inflamatórias, mas muito poucas calorias anexadas.  É uma ótima forma para obter os nutrientes e vitaminas necessárias para o dia a dia, ajuda na digestão, reduz o colesterol, ajuda a controlar os níveis de glicose, acelera o metabolismo, ajuda na anemia e fornece energia.


A moringa oferece ainda mais um presente às comunidades rurais.
Tanto as sementes da espécie etíope (Moringa stenopatala) como da asiática (Moringa oleífera) possuem as mesmas características de decantar a água. Pesquisadores do Instituto de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Minas Gerais comprovaram, em testes de laboratório, que as sementes da moringa asiática conseguem remover 99% da turbidez da água.


Onde cresce
A moringa é originária do norte da Índia, Etiópia, Filipinas e Sudão, embora esteja presente em vários países tropicais e subtropicais. A planta se cultiva na África, Ásia tropical, América Latina e Caribe, Flórida e ilhas do Pacífico. A espécie com maior valor econômico, cresce na região do Himalaia, mas se cultiva extensamente nos trópicos. À medida que se sabe mais sobre seus múltiplos usos, maior é a importância que tem no desenvolvimento de muitas áreas pobres de países em desenvolvimento. Em alguns lugares a planta é conhecida como moringueiro e quiabo-de-quina. Na África, também é chamada de "melhor amiga da mamãe".

Riscos
É preciso ter moderação no consumo da planta, pois entre seus efeitos secundários estão perda de sono, excesso de glóbulos vermelhos e acidez. Tem sido utilizada há anos para combater a desnutrição em países pobres. O problema é que agora as pessoas querem usá-la de forma indiscriminada, porque pensam que é inofensiva. Como diz um ditado popular “ a diferença entre o remédio e o veneno é simplesmente a dose”. Não se deve usar usa-la indiscriminadamente, assim como a nenhuma outra planta.
Obs.: As folhinhas da Moringa oleífera não são recomendadas sem autorização e acompanhamento médico para quem tem problemas na tireoide ou qualquer outro causado pela ingestão de iodo.
Com todos esses atributos, não é difícil considerar a moringa como uma das plantas mais generosas do planeta. Por isso, várias ONGs de desenvolvimento humano que combatem a pobreza e a fome a chamam de “super planta”, “árvore milagrosa” ou “folha que salva vidas”.


ONDE ADQUIRIR?


Para saber mais clique aqui


terça-feira, 5 de setembro de 2017

RÉQUIEM = ESTADO DE MINAS GERAIS

Presidentes deste país, tantos quantos há vinte anos, nada fizeram ou olharam sequer para o segundo maior estado da Federação.


Estado libertário! O Brasil tem 500 anos mas Minas Gerais apenas 300. Serviu ouro em bandeja para portugueses e paulistas, que se digladiaram para ver quem carregava mais. E os governadores vinham da Corte. A soberba corte que carregou o que quis, com toda autonomia. Terra de ninguém. Não existiam ainda os mineiros caracterizados. E os paulistas ainda pensam, hoje, que a Guerra dos Emboabas foi feita por mineiros. Ainda cobram o Capão da Traição. E a Guerra Civil Brasileira de 1932? Também o estado foi vítima. Simplificando – toneladas de ouro foram carregadas, no século XVIII de Ouro Preto, até para a Inglaterra, via Portugal. Ficou o quê para Minas Gerais? Buracos, pobrezas e igrejas velhas e dispendiosas. Mais, - ficou ancorado o sentimento de submissão e medo.
Por que e o que significa essa má-vontade generalizada contra o desenvolvimento deste estado? Não há razão. Ainda culpam o estado pela Tropa que desceu de Juiz de Fora no em 31 de março de 1964. Ou ainda fazem cobranças por JK ter construído Brasilia e inaugurado a Nova Capital da República em 21 de abril de 1960.
Não há necessidade de ridicularizar Tiradentes, enforcado e esquartejado a machado em praça pública no centro da cidade do Rio de Janeiro, em 21 de abril de 1792. Não há necessidade de omitir Felipe dos Santos, esquartejado ao ser amarrado em quatro cavalos, em disparada na frente do povo. Tantos vem pagando, até Juscelino Kubitschek e Tancredo Neves. Omissão total ao ex-presidente, Itamar Franco, quem implantou o Plano Real.
Belo Horizonte, a capital do estado, foi planejada e construída com o suor do povo mineiro, em menos de quatro anos e inaugurada no dia 12 de dezembro de 1897, sem a menor colaboração do governo federal. Hoje, sem carnavais nem olimpíadas.
Omitir ou desprezar Minas Gerais é um ato de pura covardia. Presidentes deste país, tantos quantos há vinte anos, nada fizeram ou olharam para o segundo maior estado da Federação. Hoje, ainda desviam o olhar. Sem fazer relatórios – há 20 anos existe uma linha de metrô para o Barreiro (segunda região mais movimentada de Belo Horizonte), pronta e sem finalização. O sistema viário é mutilado. Quem vai de norte a sul do país passa em por este estado, que, em vista disso, constantemente atende acidentados de outros estados, socorridos em seus hospitais.

O mineiro realmente é calado. Esse orgulho e essa cabeça baixa.


sexta-feira, 1 de setembro de 2017

A LEITURA, PARA ONDE VAI? AMEAÇAS?

  • 44% da população brasileira não lê e 30% nunca comprou um livro, aponta pesquisa Retratos da Leitura. Há pessoas que nunca entraram numa livraria.
  • O livro muda de forma. Quem não se adapta desaparece. Existem várias formas de leitura sem ser pelo formato em livro.

Acordaram? Um sono intempestivo e alucinante, inacreditável.


E as grandes bibliotecas? E os estoques incomensuráveis  nas livrarias esperando compradores? E os prejuízos financeiros? E as Bienais do Livro? Salva vida? Marketing em extinção. Prejuízos.

A tecnologia não quer saber de nada, quer apenas passar por cima e ir à frente. Chore quem quiser. Acusam os jovens de desinteresse. Acusam a falta de tempo dos adultos. Acusam os analfabetos funcionais. Devem acusar o tempo. OH TEMPUS, OH MORES. O tempo passa. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Acabam-se as cartas. Acabam-se os cartões postais. Acabam-se os telegramas. Acaba o telefone fixo. Acabam as listas telefônicas. As enciclopédias transformaram em paginas virtuais.

Tudo se transforma. Dos gravadores e fitas cassete aos vídeos e à televisão. Tudo sob controle da tecnologia. E o cinema? Tudo ameaçado. O gosto do público, o tempo disponível, o excesso de fontes de informação e rapidez da comunicação. Vale lembrar que a maior velocidade da comunicação no mundo era feita pelo cavalo. Mesmo no século 19. E Moisés, Abraham e Jacob viveram nas mesmas condições de D.Pedro I no Brasil.
E os jornais e revistas? Dias contados. Quando o jornal e a revista chegam às mãos, as notícias já estão velhas. Quer mais?

Não precisa ficar sentado para deparar com alterações no comportamento da humanidade pela tecnologia. Até chuvas ela já faz, agora só falta criar um meio de teletransporte. Mas a qualquer dia desses, isso pode acontecer.

E as religiões? Cada dia uma nova modalidade religiosa. Umas concorrendo com as outras. E os dogmas? Caem um a um. Salve-se quem puder. Novos paradigmas. Até o inferno foi cortado dos castigos e torturas pós-morte. E Satanás? Perdeu o emprego? Grande número de demônios está no seguro desemprego. E os pecados mortais e veniais? 

Liberação total. Valem apenas a educação de base e o Código Penal. Mesmo assim, desatualizados. Por enquanto, somente a morte é inevitável, o número de idosos é surpreendente. 

Morrer ficou mais raro.



domingo, 27 de agosto de 2017

AOS CINQUENTINHAS


Antes, a Semiótica – palavrão que significa “a voz da natureza” – pois a natureza fala, grita e até se desespera. Mas há pessoas que não escutam, não traduzem e nem decodificam nada. 




Se o tempo escurece de repente, é sinal de que pode chover. Onde há fumaça, há fogo. Eis o beabá. São indícios ou sinais da natureza. A fome, a sede, a dor são vozes do corpo. O cansaço e o estresse são vozes do corpo. São indícios que clamam. Mesmo assim, há surdos, mudos, cegos e, sobretudo analfabetos, que não traduzem nem interpretam e nem atendem esses clamores.
Eis a questão, indícios.

Se o seu carro tem um barulho diferente, o motorista para e verifica a sua voz. No radiador põe água. Óleo no motor. Troca-se o pneu. Mas um motorista inapto pisa no acelerador com mais vontade, força o carro a andar e ele funde o motor.

O cinquentinha já aprendeu o que tinha que aprender. Já deu o que tinha que dar. Está na hora de tirar o pé do acelerador. Não significa estacionar seu carro. Significa dar mais atenção a ele. Já não é um carro novo. É um seminovo. Isso significa que é também um carro semivelho.

Quem não se adapta desaparece.

A natureza fala. A musculatura do corpo desgasta. O cérebro esquenta e exige pulos e saltos. Pode ser um salto maior do que as pernas. Cada ser humano tem a sua biografia construída e armazenada no seu arquivo interno. Perdê-la de um momento para outro não custa nada. Ouvir a natureza, escutar atentamente as vozes do corpo. Interpretar e dar cuidado a elas. Ter pena do seu corpo. Cuidar é preciso. Dever de cada um. Cuidar da sua casca. Uma casca de porcelana.

Jogar sua biografia no lixo? Depois de tanto sacrifício, de vitórias e conquistas? De erros e fracassos? De experiências de vida? Pensar bem é preciso. Além disso, todo comportamento é positivo. Quer dizer que cada um faz o que quiser de sua vida. Hitler não cometeu nenhum deslize, segundo sua consciência. Truman não pensou duas vezes ao autorizar o lançamento da bomba atômica. Um senador não jogou no lixo a sua brilhante biografia, num momento inesperado, colocando-se dentro de uma simples arapuca? Estes são suicídios programados a longo prazo. Todos evitáveis.


A música toca para todos. Dança quem quiser.   

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

TABAGISMO NO BRASIL

O hábito de fumar está relacionado com o campo afetivo/emocional e não com o cognitivo. Conhecer os males provenientes do tabagismo não é suficiente para que o fumante deixe o hábito. Nem o custo, nem as despesas serão suficientes. Depende da vontade do fumante. Depende apenas de uma decisão interna. A força de vontade depende de si mesmo.




Quem viajava em transportes coletivos, seja de avião, trem ônibus ou outros meios, tinha liberdade para fumar livremente, confortavelmente em suas poltronas. Com o desenvolver da viagem, o veículo parecia uma grande chaminé em fumaças e odores. “Salve-se quem puder”. Alguns passageiros, mais sensíveis ao possível incômodo causado aos outros, perguntavam, gentilmente:
- Incomoda-se se eu fumar?
- Fique à vontade.
Ninguém ousava repelir ou reclamar. Os não-fumantes se debatiam e se salvavam como podiam. Ou não podiam. Alguns cobriam o rosto com outras roupas disponíveis e ao término da viagem, ao chegar a casa, teriam que trocar de roupa e tomar um banho de imediato. O bafo do cigarro e suas fumaças e odores refletiam por toda parte. Eram os fumantes passivos, sujeitos aos mesmos resultados danosos dos fumantes.

Lei antifumo no Brasil - A partir de 3 de dezembro de 2014, passa a valer em todo o país a chamada Lei Antifumo que proíbe, entre outras coisas, fumar em ambientes fechados públicos e privados. A estimativa é que as novas regras influenciem os hábitos de 11% da população brasileira, composta por fumantes.
A Lei 12.546, aprovada em 2011, mas regulamentada em 2014, proíbe o ato de fumar cigarros, cigarrilhas, charutos, cachimbos, narguilés e outros produtos em locais de uso coletivo, públicos ou privados, como halls e corredores de condomínios, restaurantes e clubes – mesmo que o ambiente esteja parcialmente fechado por uma parede, divisória, teto ou toldo.
Em caso de desrespeito à norma, os estabelecimentos comerciais podem ser multados e até perder a licença de funcionamento.
Houve fumantes que não acreditaram em ser viável essa proibição, em nível nacional e puseram descrenças e objeções, quanto às liberdades individuais. As reações contrárias a essa lei foram muito fortes e constantes. Entretanto, apesar de tudo, o Brasil tornou-se diferente de outras nações do mundo. A lei não foi para brincadeira e o povo acolheu finalmente as recomendações quanto à saúde da população, a peso de multas pesadas.
O brasileiro que visite outro país qualquer, mesmo que seja da América Latina, se assusta com o comportamento das pessoas quanto ao hábito de fumar em qualquer espaço. 
No Brasil, em caso de desrespeito à norma, os estabelecimentos comerciais podem ser multados e até perder a licença de funcionamento. Agora é proibido fumar em locais parcialmente fechados em qualquer um de seus lados por uma parede, divisória, teto ou toldo. Os estabelecimentos serão fiscalizados, poderão receber advertência, multas que podem chegar a R$ 1,5 milhão (descumprimento das normas sanitárias) e até mesmo serem interditados e terem sua autorização de funcionamento cancelada. A Lei vale também para áreas comuns de condomínios e clubes.
O Ministério da Saúde anunciou a regulamentação da Lei Antifumo, que estabelece ambientes fechados de uso coletivo 100% livres de tabaco. O objetivo é proteger a população do fumo passivo e contribuir para diminuição do tabagismo entre os brasileiros.
De acordo com a nova regra, está proibido o consumo de cigarros, cigarrilhas, charutos, cachimbos e outros produtos fumígenos em locais de uso coletivo, públicos ou privados, mesmo que o ambiente esteja só parcialmente fechado por uma parede, divisória, teto ou até toldo. A norma também extingue os fumódromos e acaba com a possibilidade de propaganda comercial de cigarros até mesmo nos pontos de venda, permitindo somente a exposição dos produtos, acompanhada por mensagens sobre os malefícios provocados pelo fumo. A lei não restringe o uso do cigarro em vias públicas, nas residências ou em áreas ao ar livre.
Em vários países do mundo como China, Índia, Estados Unidos e Rússia, o tabagismo, tem alta prevalência. Calcula-se que a mortalidade mundial aumentou cerca de 5% nos últimos anos. Estima-se que um em cada quatro homens e uma em cada 20 mulheres fumem hoje em dia. Aproximadamente 80% dos tabagistas vivem em 24 países, sendo dois terços em países de baixa e média renda onde a carga das doenças e mortes relacionadas ao tabaco é ainda mais frequente. Estima-se também que os fumantes atuais consumam cerca de seis trilhões de cigarros todos os anos. O consumo de tabaco no mundo vem crescendo em países em desenvolvimento e reduzindo em países desenvolvidos.


Referências bibliográficas
http://www.blog.saude.gov.br/

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

ENTREVISTA VIRTUAL COM PADRE EUSTÁQUIO


É o missionário holandês que dedicou sua vida a aliviar o sofrimento dos seus semelhantes, em fervorosas súplicas à Divina Providência. Faleceu em Belo Horizonte, em 1943 e, pelas suas virtudes e pela sua dedicação, deu natural nome a uma região da cidade, onde foi glorificado e sepultado.  Santo Padre Eustáquio foi beatificado pelo papa Bento XVI, em 2005. Seu sepultamento foi trasladado para a Igreja dos Sagrados Corações, que ele iniciou a construir.




Entrevistador -Venerável Padre Eustáquio! Pelos Sagrados Corações, peço, antes de tudo, a sua bênção e a sua proteção.
Padre Eustáquio – Em nome de  Deus, e pela minha Congregação dos Sagrados Corações, será abençoado e protegido.
E – Graças a Deus! Amém!
PE – Graças a Deus!
E – Padre Eustáquio! Sua vida foi uma missão? A entrega de uma vida?
PE – Verdadeiramente, assim é. Quando um sacerdote decide entregar-se por uma causa a favor da humanidade, significa que ele tomou uma decisão para toda a sua vida. É a predominância da fé nos seus objetivos de vida.
E – E o senhor decidiu entregar a sua vida por uma causa de Deus e da humanidade!
PE – Isso mesmo! Eu, por minha vez, decidi a minha missão. O que eu iria prestar em serviços aos meus semelhantes? Foi uma decisão muito pensada e sofrida. Ter que abandonar a minha pátria, meus pais, meus familiares, todos e meus amigos fraternos. Sou de uma família de onze filhos. Eu era o oitavo. Nós nos amávamos muito.
E – E pesou mais a sua vontade de servir a Deus?
PE – Antevi a minha missão, entregando minhas mãos, meu corpo inteiro e, além disso, a minha própria alma, para ajudar pessoas em conflito, onde quer que estivessem.
E – E como surgiu essa força, essa convicção?
PE – Quando jovem estudante na minha pátria, Holanda, caiu em minhas mãos um livro sobre a biografia de um missionário belga da nossa Congregação, Padre Damião Veuster.
E – Sim! E o que tinha de especial esse padre Damião Veuster?
PE – Quando li os relatos do trabalho dele, da abnegação e entrega total â sua missão, houve um abalo no meu peito e eu me curvei fervorosamente.
E – E o que tinha feito o Padre Damião?
PE – Tão pouco aos olhos de muitos, ajudando pobres miseráveis, sem destino, que talvez não tivessem nenhum valor, sob o ponto de vista dos poderosos.  Tinha para Deus. Padre Damião seguiu por um caminho que o levaria à santidade. O missionário belga se entrega em ajudar uma população enferma na ilha do Havaí. Na época, um reinado carente, com alto índice de enfermidades, desde gripe à sífilis contraída ou hereditária, até a lepra.
E – E padre Damião entrou como voluntário?
PE – Nesse reinado, por comando das autoridades, os leprosos foram isolados numa ilha afastada, ilha de Molokai. Mais de 600 pessoas em estado de desespero. E famintas. Ilha de Molokai. O Havaí é hoje uma unidade incorporada aos EUA mas, na época, predominavam as enfermidades e o abandono.
E – Foram isolados, numa ilha afastada?
PE – A Royal Board of Health fornecia alimentos, mas não tinha condições de fornecer também medicamentos. Uma infelicidade generalizada. Todos condenados.
E – E Padre Damião? 
PE – Em 1865, foi colocado em missão na ilha do Havaí. O Monsenhor Louis Maigret, vigário apostólico, que protegia os leprosos, designou Padre Damião para assistir esses leprosos com os sagrados sacramentos e com os atos religiosos. Uma população segregada. Damião sabia que tal designação seria uma sentença de morte para ele.  Depois de muito pensar, Damião solicitou a sua designação para servir a Deus nessa ilha de Molokai.
E – E Padre Damião seguiu para Molokai?
PE – Damião chegou à ilha em 1873 e foi apresentado pelo Monsenhor Maigret como um pai para todos os moradores - “viverá e morrerá com vocês”. Isso foi. Damião assumiu essa paternidade total. Trabalhar sem saber por onde começar. Abriu tantas frentes de trabalho que nem imaginava resultados. Passou a construir um pequeno hospital, com a colaboração de um médico que tinha contraído a doença e se refugiou na ilha. Logo depois, uma capela, com a ajuda das mãos feridas dos leprosos. Uma  população revoltada. Nada podia ser diferente. Era uma população agressiva que matava por um punhado de arroz. Paz, apaziguar e manter clima de harmonia em princípio. Assim, incorporou a figura de pai, amigo, confidente, professor e representante de Deus. Foi realmente um pai para todos. Tornou-se mesmo mais que um pai e um irmão, procurando amenizar o sofrimento tanto quanto possível.
E – E aí morreu?
PE – Sim... mas antes disso, recebeu do Rei Kalakaua, do reino do Havaí, o título honorífico de Cavaleiro Comandante da Real Ordem. E, no dia que a Princesa Lydia Lili´uckalarti visitou a ilha para entrega da comenda, ela se comoveu tanto que não conseguiu ler o seu discurso. Padre Damião nunca usou essa medalha recebida.
E – Houve reconhecimento quanto ao seu trabalho?
PE – Sim... Nos EUA e na Europa – Hoje tem o título de Patrono Espiritual dos Leprosos do mundo inteiro. Era Jozef de Veuster, da Congregação dos Sagrados Corações, nascido em Tremelo, Bélgica, em 1840.
E – Um santo?
PE – Sim... Um santo. Dez anos depois de chegar a Molokai, num dia, colocou os pés numa bacia de água fervente. Nada percebeu. Foi constatada a contaminação da lepra. Ainda viveu por mais algum tempo sem abandonar a sua missão... Faleceu em 1889, nessa mesma ilha de Molokai. Era um missionário da minha Congregação, que tanto me emocionou e inspirou.   
E – Padre Damião foi assim admirado pelo senhor?
PE – Tornou-se meu ídolo inspirador. Tomei a decisão na minha vida, aliviar enfermidades e propor paz e harmonia entre as pessoas. Meu lema seria SAÚDE E PAZ. Vi que eu também poderia prestar algum serviço à humanidade. Qualquer pequena ajuda. Vi quão pequeno eu era diante do Padre Damião, diante da sua força e diante da sua convicção. Eu não era nada.
E – E o senhor era um jovem estudante na Holanda, nessa época.
PE – Eu era Humberto Lieshout, nascido em 1890, em Aarle Rixtel, Holanda. Iniciei o noviciado canônico em Tremelo, na Bélgica. Nessa época, adotei o nome de Eustáquio. Fiz votos de pobreza, castidade e obediência, como religioso da Congregação dos Sagrados Corações. Fiz votos perpétuos em 1919, após cursar Filosofia e Teologia na congregação e fui ordenado sacerdote.
E – Aí começa a sua vida sacerdotal?
PE – Sim. Inicialmente, comecei a prestar serviços em pequenas comunidades na região de Roterdam. Depois, atendendo refugiados belgas, vítimas do final da Primeira Grande Guerra de 1914/1918, até que fui designado para trabalhos na América do Sul.
E – E finalmente, o Brasil?
PE – Em 1925, chegamos ao Brasil. Éramos três sacerdotes, eu e os Padres Gil van den Boorgart e Padre Matias van Rooy. Dirigimo-nos a cidade de Uberaba, em Minas Gerais, a convite do Bispo Dom Antônio de Almeida Lustosa. Assumimos a pastoral do santuário episcopal e das paróquias de Nossa Senhora da Abadia, na cidade de Romaria da paróquia de São Miguel de Nova Ponte e Santana de Indianópolis, todas da Arquidiocese de Uberaba. Fiquei como vigário paroquial com prioridade para os serviços de atendimento às comunidades da região.
E – Uma comunidade rural de modestas aspirações?
PE – Uma comunidade afetiva e acolhedora. Aprendi muito e tive que me adaptar às circunstâncias. A atividade pastoral em Romaria, no início foi muito difícil. Pouco a pouco fomos nos acertando. Talvez uma descrença generalizada. Visitava os enfermos e pessoas que podiam me acolher com simpatia. Distribuímos fé e amor a Deus. Se as pessoas não vinham a mim eu iria a elas. Consegui mais do que esperava e reuni esforços em várias comunidades distantes. Montava a cavalo e viajava por todos os lados. Tive sucesso. Prestei alivio a pessoas em conflito físico e espiritual. Tudo era distante e as comunicações eram precárias.
E – Consta que o senhor era ágil, dinâmico e acolhedor. Atendia até mordida de cobra?
PE – Isto aconteceu. Comunidade rural, sem médicos ou medicamentos. Estava eu, cavando um local a procura de areia especial para algum aproveitamento a dores, quando fui chamado para dar os últimos sacramentos a um rapaz da região que tinha sido mordido por uma cobra e estava em estado terminal. Peguei o cavalo e fui disparado para o local. Manoel estava sem ar, perna roxa, suando frio, praticamente sem consciência. Lembro-me bem! Pedi que todos se afastassem do quarto. Tirei um bisturi da minha bolsa de couro e fiz um incisão no local da marca dos dentes da cobra. Perna roxa e inchada. Jorrou um sangue preto. Limpamos tudo. Coloquei minha boca nesse local e aspirei uma boa quantidade de sangue. Manoel, um belo rapaz, foi salvo, graças à vontade de Deus.
E – Mas o senhor já tinha dado bênçãos milagrosas a outros paroquianos em dificuldades e doenças.
PE – Sempre procurei atender e pedir a Deus por eles. Muitas vezes fui atendido.
E – Mesmo assim, depois de tanto trabalho, a Congregação aceitou a sua transferência para a cidade de Poá, em São Paulo.
PE – Meu voto de obediência exigia esse caminho diferenciado. Mas a população de Romaria não permitiu. Tudo fez para impedir a minha saída. Até o bloqueio de estrada de acesso. Finalmente, uma festa de despedida. E o caso de um crime abalou a cidade. Saí discretamente mas deixando a população entristecida, sei disso.
E – E o que encontrou em Poá?
PE – Tudo diferente. Uma paróquia nova, grande e confortável. Comunicação rápida. Tudo diferente em termos, pois a população era sofrida pelo trabalho nas indústrias e como hortigranjeiros. Atendia de forma diferenciada. Comecei a visitar enfermos e pessoas em dificuldades. Houve, em pouco tempo, uma procura desproporcional às minhas possibilidades de atendimento, principalmente pela água milagrosa que eu trouxera da cidade de Lourdes - França. Depois, pela fonte construída em homenagem a Lourdes. Houve curas a meu pedido. Houve distúrbio e pessoas de outras regiões acorriam às minhas bênçãos e ao meu atendimento. As autoridades eclesiásticas não queriam isso. Obrigaram-me ao recolhimento. Impediram que eu aparecesse para os paroquianos. Tudo tão estranho e desconfortável para mim. Isso fez com que pedissem meu afastamento. Passei um tempo de desconforto e de humilhação. Estava mesmo em desespero. Por que Deus me daria esse castigo? Meditei, viajei, sofri em desamparo. Talvez me afastar do país? Portugal me acolheria? Finalmente, fiz uma carta a meu amigo, Dom José Gaspar de Affonseca e Silva, Arcebispo Metropolitano de São Paulo, relatando meu estado de desespero e humilhação e disposto a continuar o exercício paroquial em qualquer outra comunidade do estado de modo como ele julgasse apropriado. Dom Gaspar respondeu que seria inviável a minha permanência no estado, para evitar aglomerações e atividades que poderiam ocasionar até advertências do Sumo Pontífice e coisas assim. Estaria eu livre para ir para onde quisesse.
E – Era manifestação das autoridades eclesiásticas e não as do povo.
PE – Sim, mas o povo era a causa. Pensei que pudesse ser até uma contradição entre as autoridades que buscam o povo e depois, tenta afastá-lo.
E – E o senhor?
PE – Meu voto de obediência foi preservado. Procurei caminhos. Todos se fecharam. Eu era então um sacerdote rejeitado. Que fazer da minha vida? Por que Deus me deu um poder e ao mesmo tempo me tolhe e me angustia? Chegou finalmente a ordem para que eu me afastasse imediatamente, mesmo considerando que era tarde da noite quando recebi a comunicação. Obediência mesmo sem ter tempo de acabar de ler o meu breviário. Assim mesmo.
E – Que decisão?
PE – Que decisão? A quem recorrer? Não podia também prejudicar a imagem da minha Congregação. E meus amigos? Apareceu o Padre Gil. Confabulamos e traçamos planos em várias tentativas de acerto. Mais erros e decepções. Finalmente, uma luz. Padre Gil articulou-se com o Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, Dom Antônio dos Santos Cabral e me foi oferecida uma paróquia de subúrbio da cidade, ao redor de um hospital de tuberculosos, o Sanatório Alberto Cavalcanti.  Uma capela distante, de difícil acesso num bairro despovoado. Além de tudo com uma lista de recomendações. Aceitei tudo de pleno coração. Encontrei-me em casa.
E – Nova vida?
PE – Assim foi. Iniciei minhas atividades em Belo Horizonte, em 9 de abril de 1942,  e agi de acordo com as circunstâncias. Aos poucos fui crescendo e a comunidade foi chegando a mim. E foi chegando tão inesperadamente que alguns meses depois, Dom Cabral me pediu que esquecesse daquelas recomendações que tinha feito.
E – O povo acolhia as suas bênçãos!
PE – Sim... Vinham pessoas de várias regiões, inclusive de São Paulo mesmo. Assim foi, até que o atual prefeito da cidade, doutor Juscelino Kubitschek de Oliveira doou um terreno para a construção da Igreja dos Sagrados Corações. A pedra fundamental foi abençoada pelo próprio Dom Cabral, em 16 de maio de 1943.
E – Missão interminável?
PE – Percorria as ruas a pé, pelas trilhas e pelas montanhas da cidade, onde quer que os enfermos se encontrassem, até que em meados do mês de agosto, o enfermo fui eu mesmo. Não havia medicamentos para a febre tifo que tinha contraído e esperei com ansiedade o meu fim. Queria tanto despedir-me do meu amigo e confrade, padre Gil. Ele custou a aparecer. Quando ele surgiu na minha porta, em 30 de agosto de 1943, disse-lhe apenas – “Padre Gil, como demorou a chegar!”. E me despedi. Finalmente, me despedi.
E – Uma vida inteira, uma bandeira de Saúde e Paz! Não foram termos abstratos mas traduzidos em ações imediatas e contínuas. Mais ações e menos palavras.
PE – Padre Damião, Santo Padre Damião do Molokai, foi meu conselheiro em todas as horas. Tão pequena e leve foi a minha missão, mas dediquei todo meu esforço em interceder com a Divina Providência, para aliviar o sofrimento físico e espiritual dos meus semelhantes. Nada mais.
E – Novamente, peço a sua bênção, Venerável e Santo Padre Eustáquio! Reafirmo, perante a humanidade, que o senhor teve o dom de trazer alívio e tranquilidade para tantas pessoas que o procuraram, mediante a sua santidade,  e que tantos e silenciosos milagres realizou. O senhor não se referiu nem uma vez, nesta entrevista, a qualquer feito glorioso que tivesse realizado. Tudo guardado no seu coração, como se nada tivesse acontecido. Pelos Sagrados Corações, descanse em paz.


Referências Bibliográficas
Andrade, José Vicente. Venerável Padre Eustáquio. Congregação dos Sagrados Corações. Belo Horizonte, 2004
http://www.vatican.va/news_services/liturgy/saints/ns_lit_doc_20060615_eustaquio_po.html
http://evangelhoquotidiano.org/main.php?language=PT&module=saintfeast&id=12527&fd=0
http://padreeustaquio.org.br/